quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

"MÁQUINA DO TEMPO" - António Gedeão



O Universo é feito essencialmente de coisa nenhuma.
Intervalos, distâncias, buracos, porosidade etérea.
Espaço vazio, em suma.
O resto, é a matéria.

Daí, que este arrepio,
este chamá-lo e tê-lo, erguê-lo e defrontá-lo,
esta fresta de nada aberta no vazio,
deve ser um intervalo.



(In; "Poesias completas" (1956-1967), 1983)
 

"GOTA DE ÁGUA" - António Gedeão




Eu, quando choro,
não choro eu.

Chora aquilo que nos homens
em todo o tempo sofreu.
 
As lágrimas são minhas
mas o choro não é meu.

(In: Movimento Perpétuo, 1956)

"NÃO ESTEJAS LONGE DE MIM UM DIA QUE SEJA..." - Pablo Neruda




Não estejas longe de mim um dia que seja, porque,
porque, não sei dizê-lo, é longo o dia,
e estarei à tua espera como nas estações
quando em algum sítio os comboios adormeceram.

Não te afastes uma hora porque então
nessa hora se juntam as gotas da insónia
e talvez o fumo que anda à procura de casa
venha matar ainda meu coração perdido.

Ai que não se quebre a tua silhueta na areia,
ai que na ausência as tuas pálpebras não voem:
não te vás por um minuto, ó bem-amada,

porque nesse minuto terás ido tão longe
que atravessarei a terra inteira perguntando
se voltarás ou me deixarás morrer

(XLV. Não estejas longe de mim um dia que seja, porque
In: "Cem Sonetos de Amor"; Tradução de Albano Martins; Campo das Letras, 2004)

"LEMBRAS ME UM SONHO LINDO" - Fausto

Ao vivo no CCB

Lembra-me um sonho lindo, quase acabado
Lembra-me um céu aberto, outro fechado
Estala-me a veia em sangue, estrangulada
Estoira no peito um grito, à desfilada

Canta, rouxinol, canta, não me dês penas
Cresce, girassol, cresce entre açucenas
Afaga-me o corpo todo, se te pertenço
Rasga-me o ventre ardendo em fumo de incenso

Ai! Como eu te amo! Ai! Tão sossegada!
Ai! Beijo-te o corpo! Ai! Seara tão desejada!
Ai! Como eu te quero! Ai! De madrugada!
Ai! Alma da terra! Ai! Linda, assim deitada!

"PROMESSAS" - Bernardo Sassetti

(Album Índigo)

A BELEZA IMPERFEITA...

Ou... as musas que já ninguém quer olhar...




"Laugh", Aleah Chapin

óleo sobre tela, 40 x 48 polegadas



Um artigo assinado por Alba Muñoz  sobre o trabalho da jovem pintora Aleah Chapin que reproduz corpos de mulheres que passam dos 60 anos, oferecendo-nos a oportunidade para reflectimos sobre uma realidade que nos tocará/toca a todos, mulheres e homens.


Para mim a beleza, seja qual for a idade, depende sempre dos olhos da alma de quem nos mira... mesmo que ao espelho, mas entendo que, para a maioria, fixada em cânones estereotipados do que é a "beleza" e em preconceitos de concepção da sociedade estratificada rigidamente em grupos etários, não seja assim.



Uma amiga comentou, a propósito deste artigo, "a melhor roupa, a nossa pele". E como a melhor roupa enruga e se deforma, dando-me o mote para ir à descobris da "pele" na poesia:

Assim escolhi, da Teresa Horta:

A PELE

A pele goza
a pele muda
a pele sangra

Na turvação oculta
sob os dedos
no enredo do ciúme

A hesitar
em ser arrebatada
ou ser enredo

A pele vive
e pulsa
a pele gosta

Entrega-se na pressa
à desmesura, debaixo
do vestido a sussurrar

Como um pássaro
de lume
ou de loucura

A pele quer e fere
renda e faca
a pele sara e fecha na cintura

Ferro no arroubo
veia intacta
tacto de cetim e aventura

Mas logo cicatriza
quando rasga
ora eclipse ora lua

A pele conta
e seduz
a pele invoca

Com o seu
febril odor
de pérola acesa

Tendo da camélia
a maciez do sexo
amêndoa fendida na beleza

A pele entorna
a pele turva despida
a pele evita

A pele cura
mata
e silencía

Da palma e da vagina
o lento odor da folha
do roseiral do corpo

E da poesia

(In: Revista Inútil #3)


De Bandeira Tribuzi, poeta brasileiro:

O HOMEM EM PELE E OSSO

A pele é superfície,
os ossos são entranha.

A pele é o que se vê,
os ossos o que escapa.

A pele é uma casca,
os ossos uma safra.

A pele é entrega,
o osso é arma.

A pele é palma,
o osso é clava.

A pele é a pintura,
os ossos são a casa.

A pele é o acidente,
o osso o permanente.

A pele são as nuvens,
os ossos são a água.

A pele são os musgos,
os ossos são as montanhas.

A pele é o agora,
os ossos são milênios.

A pele é um orvalho,
os ossos são invernos.


(In: Pele & Osso, 1970)

"NAMORO" de Viriato da Cruz


NA VOZ DE FAUSTO
 
Mandei-lhe uma carta em papel perfumado
e com a letra bonita eu disse ela tinha
um sorrir luminoso tão quente e gaiato
como o sol de Novembro brincando de artista nas acácias floridas
espalhando diamantes na fímbria do mar
e dando calor ao sumo das mangas.
sua pele macia - era sumaúma...
Sua pele macia, da cor do jambo, cheirando a rosas
tão rijo e tão doce - como o maboque...
Seu seios laranjas - laranjas do Loge
seus dentes... - marfim...
Mandei-lhe uma carta
e ela disse que não.

Mandei-lhe um cartão
que o Maninjo tipografou:
"Por ti sofre o meu coração"
Num canto - SIM, noutro canto - NÃO
E ela o canto do NÃO dobrou.

Mandei-lhe um recado pela Zefa do Sete
pedindo rogando de joelhos no chão
pela Senhora do Cabo, pela Santa Ifigénia,
me desse a ventura do seu namoro...
E ela disse que não.

Levei à avó Chica, quimbanda de fama
a areia da marca que o seu pé deixou
para que fizesse um feitiço forte e seguro
que nela nascesse um amor como o meu...
E o feitiço falhou.

Esperei-a de tarde, à porta da fábrica,
ofertei-lhe um colar e um anel e um broche,
paguei-lhe doces na calçada da Missão,
ficamos num banco do largo da Estátua,
afaguei-lhe as mãos...
falei-lhe de amor... e ela disse que não.

Andei barbado, sujo, e descalço,
como um mona-ngamba.
Procuraram por mim
" - Não viu...(ai, não viu...?) Não viu Benjamim?"
E perdido me deram no morro da Samba.
E para me distrair
levaram-me ao baile do sô Januário
mas ela lá estava num canto a rir
contando o meu caso às moças mais lindas do Bairro Operário

Tocaram uma rumba dancei com ela
e num passo maluco voamos na sala
qual uma estrela riscando o céu!
E a malta gritou: "Aí Benjamim!"
Olhei-a nos olhos - sorriu para mim
pedi-lhe um beijo - e ela disse que sim.

In: No reino de Caliban II - antologia panorâmica de poesia africana de expressão portuguesa