Não estejas longe de mim um dia que seja, porque,
porque, não sei dizê-lo, é longo o dia, e estarei à tua espera como nas estações quando em algum sítio os comboios adormeceram.
Não te afastes uma hora porque então
nessa hora se juntam as gotas da insónia
e talvez o fumo que anda à procura de casa
venha matar ainda meu coração perdido.
Ai que não se quebre a tua silhueta na areia,
ai que na ausência as tuas pálpebras não voem:
não te vás por um minuto, ó bem-amada,
porque nesse minuto terás ido tão longe
que atravessarei a terra inteira perguntando
se voltarás ou me deixarás morrer
(XLV. Não estejas longe de mim um dia que seja, porque
In: "Cem Sonetos de Amor"; Tradução de Albano Martins; Campo das Letras, 2004)
Lembra-me um sonho lindo, quase acabado Lembra-me um céu aberto, outro fechado Estala-me a veia em sangue, estrangulada Estoira no peito um grito, à desfilada
Canta, rouxinol, canta, não me dês penas Cresce, girassol, cresce entre açucenas Afaga-me o corpo todo, se te pertenço Rasga-me o ventre ardendo em fumo de incenso
Ai! Como eu te amo! Ai! Tão sossegada! Ai! Beijo-te o corpo! Ai! Seara tão desejada!
Ai! Como eu te quero! Ai! De madrugada! Ai! Alma da terra! Ai! Linda, assim deitada!
Um artigo assinado por Alba Muñoz sobre o trabalho da jovem pintoraAleahChapin que reproduzcorpos de mulheresque passamdos 60 anos, oferecendo-nos a oportunidade para reflectimos sobre uma realidade que nos tocará/toca a todos, mulheres e homens.
Para mim a beleza, seja qual for a idade, depende sempre dos olhos da alma de quem nos mira... mesmo que ao espelho, mas entendo que, para a maioria, fixada em cânones estereotipados do que é a "beleza" e em preconceitos de concepção da sociedade estratificada rigidamente em grupos etários, não seja assim.
Uma amiga comentou, a propósito deste artigo, "a melhor roupa, a nossa pele". E como a melhor roupa enruga e se deforma, dando-me o mote para ir à descobris da "pele" na poesia:
Assim escolhi, da Teresa Horta:
A PELE
A pele goza a pele muda a pele sangra
Na turvação oculta sob os dedos no enredo do ciúme
A hesitar em ser arrebatada ou ser enredo
A pele vive e pulsa a pele gosta
Entrega-se na pressa à desmesura, debaixo do vestido a sussurrar
Como um pássaro de lume ou de loucura
A pele quer e fere renda e faca a pele sara e fecha na cintura
Ferro no arroubo veia intacta tacto de cetim e aventura
Mas logo cicatriza quando rasga ora eclipse ora lua
A pele conta e seduz a pele invoca
Com o seu febril odor de pérola acesa
Tendo da camélia a maciez do sexo amêndoa fendida na beleza
A pele entorna a pele turva despida a pele evita
A pele cura mata e silencía
Da palma e da vagina o lento odor da folha do roseiral do corpo
Mandei-lhe uma carta em papel perfumado
e com a letra bonita eu disse ela tinha um sorrir luminoso tão quente e gaiato como o sol de Novembro brincando de artista nas
acácias floridas espalhando diamantes na fímbria do mar e dando calor ao sumo das mangas. sua pele macia - era sumaúma... Sua pele macia, da cor do jambo, cheirando a rosas tão rijo e tão doce - como o maboque... Seu seios laranjas - laranjas do Loge seus dentes... - marfim...
Mandei-lhe uma carta
e ela disse que não.
Mandei-lhe um cartão
que o Maninjo tipografou:
"Por ti sofre o meu coração"
Num canto - SIM, noutro canto - NÃO
E ela o canto do NÃO dobrou.
Mandei-lhe um recado pela Zefa do Sete
pedindo rogando de joelhos no chão
pela Senhora do Cabo, pela Santa Ifigénia,
me desse a ventura do seu namoro...
E ela disse que não.
Levei à avó Chica, quimbanda de fama
a areia da marca que o seu pé deixou
para que fizesse um feitiço forte e seguro
que nela nascesse um amor como o meu...
E o feitiço falhou.
Esperei-a de tarde, à porta da fábrica,
ofertei-lhe um colar e um anel e um broche,
paguei-lhe doces na calçada da Missão,
ficamos num banco do largo da Estátua,
afaguei-lhe as mãos...
falei-lhe de amor... e ela disse que não.
Andei barbado, sujo, e descalço,
como um mona-ngamba.
Procuraram por mim
" - Não viu...(ai, não viu...?) Não viu Benjamim?"
E perdido me deram no morro da Samba.
E para me distrair
levaram-me ao baile do sô Januário
mas ela lá estava num canto a rir
contando o meu caso às moças mais lindas do Bairro Operário
Tocaram uma rumba dancei com ela
e num passo maluco voamos na sala
qual uma estrela riscando o céu!
E a malta gritou: "Aí Benjamim!"
Olhei-a nos olhos - sorriu para mim
pedi-lhe um beijo - e ela disse que sim.
In: No
reino de Caliban II - antologia panorâmica de poesia africana de expressão
portuguesa