quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

A BELEZA IMPERFEITA...

Ou... as musas que já ninguém quer olhar...




"Laugh", Aleah Chapin

óleo sobre tela, 40 x 48 polegadas



Um artigo assinado por Alba Muñoz  sobre o trabalho da jovem pintora Aleah Chapin que reproduz corpos de mulheres que passam dos 60 anos, oferecendo-nos a oportunidade para reflectimos sobre uma realidade que nos tocará/toca a todos, mulheres e homens.


Para mim a beleza, seja qual for a idade, depende sempre dos olhos da alma de quem nos mira... mesmo que ao espelho, mas entendo que, para a maioria, fixada em cânones estereotipados do que é a "beleza" e em preconceitos de concepção da sociedade estratificada rigidamente em grupos etários, não seja assim.



Uma amiga comentou, a propósito deste artigo, "a melhor roupa, a nossa pele". E como a melhor roupa enruga e se deforma, dando-me o mote para ir à descobris da "pele" na poesia:

Assim escolhi, da Teresa Horta:

A PELE

A pele goza
a pele muda
a pele sangra

Na turvação oculta
sob os dedos
no enredo do ciúme

A hesitar
em ser arrebatada
ou ser enredo

A pele vive
e pulsa
a pele gosta

Entrega-se na pressa
à desmesura, debaixo
do vestido a sussurrar

Como um pássaro
de lume
ou de loucura

A pele quer e fere
renda e faca
a pele sara e fecha na cintura

Ferro no arroubo
veia intacta
tacto de cetim e aventura

Mas logo cicatriza
quando rasga
ora eclipse ora lua

A pele conta
e seduz
a pele invoca

Com o seu
febril odor
de pérola acesa

Tendo da camélia
a maciez do sexo
amêndoa fendida na beleza

A pele entorna
a pele turva despida
a pele evita

A pele cura
mata
e silencía

Da palma e da vagina
o lento odor da folha
do roseiral do corpo

E da poesia

(In: Revista Inútil #3)


De Bandeira Tribuzi, poeta brasileiro:

O HOMEM EM PELE E OSSO

A pele é superfície,
os ossos são entranha.

A pele é o que se vê,
os ossos o que escapa.

A pele é uma casca,
os ossos uma safra.

A pele é entrega,
o osso é arma.

A pele é palma,
o osso é clava.

A pele é a pintura,
os ossos são a casa.

A pele é o acidente,
o osso o permanente.

A pele são as nuvens,
os ossos são a água.

A pele são os musgos,
os ossos são as montanhas.

A pele é o agora,
os ossos são milênios.

A pele é um orvalho,
os ossos são invernos.


(In: Pele & Osso, 1970)

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