quarta-feira, 2 de março de 2016

"SAMBA EM PRELÚDIO" - Vinicius de Moraes



Autores: Vinicius de Moraes e Baden Powell.

Eu sem você não tenho porquê
Porque sem você não sei nem chorar
Sou chama sem luz, jardim sem luar
Luar sem amor, amor sem se dar

E eu sem você sou só desamor
Um barco sem mar, um campo sem flor
Tristeza que vai, tristeza que vem
Sem você, meu amor, eu não sou ninguém

Ah, que saudade
Que vontade de ver renascer nossa vida
Volta, querido
Teus abraços precisam dos meus
Os meus braços precisam dos teus
Estou tão sozinha
Tenho os olhos cansados de olhar para o além
Vem ver a vida
Sem você, meu amor, eu não sou ninguém

segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

INQUIETAÇÃO - José Afonso

 Música: Alexandre Augusto de Rezende Mendes (1886-1953)
Letra: Edmundo Alberto Bettencourt (1899-1973)


És linda, se foras feia
Mesmo assim eu te queria
Não é por ser lua cheia
Que a lua mais alumia.
 

Todo o bem que não se alcança
Vive em nós morto de dor
Quem ama de amor não cansa
E se morrer é de amor.

sábado, 27 de fevereiro de 2016

INQUIETAÇÃO - José Mário Branco

Há sempre qualquer coisa que eu tenho que fazer. Qualquer coisa que eu devia resolver. Porquê, não sei. Mas sei Que essa coisa é que é linda.


A contas com o bem que tu me fazes
A contas com o mal por que passei
Com tantas guerras que travei
Já não sei fazer as pazes


São flores aos milhões entre ruínas
Meu peito feito campo de batalha
Cada alvorada que me ensinas
Oiro em pó que o vento espalha

Cá dentro inquietação, inquietação
É só inquietação, inquietação
Porquê, não sei
Porquê, não sei
Porquê, não sei ainda

Há sempre qualquer coisa que está pra acontecer
Qualquer coisa que eu devia perceber
Porquê, não sei
Porquê, não sei
Porquê, não sei ainda

Ensinas-me fazer tantas perguntas
Na volta das respostas que eu trazia
Quantas promessas eu faria
Se as cumprisse todas juntas

Não largues esta mão no torvelinho
Pois falta sempre pouco para chegar
Eu não meti o barco ao mar
Pra ficar pelo caminho

Cá dentro inquietação, inquietação
É só inquietação, inquietação
Porquê, não sei
Porquê, não sei
Porquê, não sei ainda

Há sempre qualquer coisa que está pra acontecer
Qualquer coisa que eu devia perceber
Porquê, não sei
Porquê, não sei
Porquê, não sei ainda

Cá dentro inquietação, inquietação
É só inquietação, inquietação
Porquê, não sei
Mas sei
É que não sei ainda

Há sempre qualquer coisa que eu tenho que fazer
Qualquer coisa que eu devia resolver
Porquê, não sei
Mas sei
Que essa coisa é que é linda

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

"A MORTE ASSISTIDA E A CARTA DE LINCOLN" - Laura Ferreira dos Santos

A morte assistida e a carta de Lincoln
"Quando não aguentar mais, vão dizer-me que não reflecti o suficiente?"

Respigoainda:
"...
Faça-se tudo contra a dor, mas respeitem a minha dignidade até ao fim respeitando as minhas convicções mais íntimas e reflectidas sobre o sentido da vida e da morte. Respeitem a minha vida privada, como o reclama a Convenção Europeia dos Direitos Humanos (art.º 8), vida privada não sujeita a referendos."

"TENDERLY" - Billie Holiday


"SABERÁS QUE NÃO TE AMO E QUE TE AMO" - Pablo Neruda


Saberás que não te amo e que te amo
pois que de dois modos é a vida,
a palavra é uma asa do silêncio,
o fogo tem sua metade de frio.

Amo-te para começar a amar-te,
para recomeçar o infinito
e para não deixar de amar-te nunca:
por isso não te amo ainda.

Amo-te e não te amo como se tivesse nas
minhas mãos a chave da felicidade e um
incerto destino infeliz

O meu amor tem duas vidas para amar-te.
Por isso te amo quando não te amo
e por isso te amo quando te amo.

(XLIV. Saberás que não te amo e que te amo
In: "Cem Sonetos de Amor"; Tradução de Albano Martins; Campo das Letras, 2004)

"MÁQUINA DO TEMPO" - António Gedeão



O Universo é feito essencialmente de coisa nenhuma.
Intervalos, distâncias, buracos, porosidade etérea.
Espaço vazio, em suma.
O resto, é a matéria.

Daí, que este arrepio,
este chamá-lo e tê-lo, erguê-lo e defrontá-lo,
esta fresta de nada aberta no vazio,
deve ser um intervalo.



(In; "Poesias completas" (1956-1967), 1983)
 

"GOTA DE ÁGUA" - António Gedeão




Eu, quando choro,
não choro eu.

Chora aquilo que nos homens
em todo o tempo sofreu.
 
As lágrimas são minhas
mas o choro não é meu.

(In: Movimento Perpétuo, 1956)

"NÃO ESTEJAS LONGE DE MIM UM DIA QUE SEJA..." - Pablo Neruda




Não estejas longe de mim um dia que seja, porque,
porque, não sei dizê-lo, é longo o dia,
e estarei à tua espera como nas estações
quando em algum sítio os comboios adormeceram.

Não te afastes uma hora porque então
nessa hora se juntam as gotas da insónia
e talvez o fumo que anda à procura de casa
venha matar ainda meu coração perdido.

Ai que não se quebre a tua silhueta na areia,
ai que na ausência as tuas pálpebras não voem:
não te vás por um minuto, ó bem-amada,

porque nesse minuto terás ido tão longe
que atravessarei a terra inteira perguntando
se voltarás ou me deixarás morrer

(XLV. Não estejas longe de mim um dia que seja, porque
In: "Cem Sonetos de Amor"; Tradução de Albano Martins; Campo das Letras, 2004)

"LEMBRAS ME UM SONHO LINDO" - Fausto

Ao vivo no CCB

Lembra-me um sonho lindo, quase acabado
Lembra-me um céu aberto, outro fechado
Estala-me a veia em sangue, estrangulada
Estoira no peito um grito, à desfilada

Canta, rouxinol, canta, não me dês penas
Cresce, girassol, cresce entre açucenas
Afaga-me o corpo todo, se te pertenço
Rasga-me o ventre ardendo em fumo de incenso

Ai! Como eu te amo! Ai! Tão sossegada!
Ai! Beijo-te o corpo! Ai! Seara tão desejada!
Ai! Como eu te quero! Ai! De madrugada!
Ai! Alma da terra! Ai! Linda, assim deitada!

"PROMESSAS" - Bernardo Sassetti

(Album Índigo)

A BELEZA IMPERFEITA...

Ou... as musas que já ninguém quer olhar...




"Laugh", Aleah Chapin

óleo sobre tela, 40 x 48 polegadas



Um artigo assinado por Alba Muñoz  sobre o trabalho da jovem pintora Aleah Chapin que reproduz corpos de mulheres que passam dos 60 anos, oferecendo-nos a oportunidade para reflectimos sobre uma realidade que nos tocará/toca a todos, mulheres e homens.


Para mim a beleza, seja qual for a idade, depende sempre dos olhos da alma de quem nos mira... mesmo que ao espelho, mas entendo que, para a maioria, fixada em cânones estereotipados do que é a "beleza" e em preconceitos de concepção da sociedade estratificada rigidamente em grupos etários, não seja assim.



Uma amiga comentou, a propósito deste artigo, "a melhor roupa, a nossa pele". E como a melhor roupa enruga e se deforma, dando-me o mote para ir à descobris da "pele" na poesia:

Assim escolhi, da Teresa Horta:

A PELE

A pele goza
a pele muda
a pele sangra

Na turvação oculta
sob os dedos
no enredo do ciúme

A hesitar
em ser arrebatada
ou ser enredo

A pele vive
e pulsa
a pele gosta

Entrega-se na pressa
à desmesura, debaixo
do vestido a sussurrar

Como um pássaro
de lume
ou de loucura

A pele quer e fere
renda e faca
a pele sara e fecha na cintura

Ferro no arroubo
veia intacta
tacto de cetim e aventura

Mas logo cicatriza
quando rasga
ora eclipse ora lua

A pele conta
e seduz
a pele invoca

Com o seu
febril odor
de pérola acesa

Tendo da camélia
a maciez do sexo
amêndoa fendida na beleza

A pele entorna
a pele turva despida
a pele evita

A pele cura
mata
e silencía

Da palma e da vagina
o lento odor da folha
do roseiral do corpo

E da poesia

(In: Revista Inútil #3)


De Bandeira Tribuzi, poeta brasileiro:

O HOMEM EM PELE E OSSO

A pele é superfície,
os ossos são entranha.

A pele é o que se vê,
os ossos o que escapa.

A pele é uma casca,
os ossos uma safra.

A pele é entrega,
o osso é arma.

A pele é palma,
o osso é clava.

A pele é a pintura,
os ossos são a casa.

A pele é o acidente,
o osso o permanente.

A pele são as nuvens,
os ossos são a água.

A pele são os musgos,
os ossos são as montanhas.

A pele é o agora,
os ossos são milênios.

A pele é um orvalho,
os ossos são invernos.


(In: Pele & Osso, 1970)