terça-feira, 21 de outubro de 2014

"O ÚNICO SABOR" - António Ramos Rosa

Sabor, sabor oculto,
submerso,
sabor adormecido, ó rosas, ó antes, primaveras,
sabor só abruptamente surto
na queda do sono, no fulgor de um relâmpago,
surto, submerso,
ó sabor antes da consciência, antes de tudo,
ó sabor só nascido sobre a paz última de tudo para além de tudo,
sabor da terra ainda antes dos olhos,
sabor a nascer, sabor-desejo, antes do beijo, sabor de beijo,
sabor mais lento, mais fundo, mais de dentro,
sabor a marulhar, cálido, denso, como a cor,
sabor de estar, sabor de ser,
ó tranquila degustação sem mandíbulas,
sabor de dentro como de um cheiro imemorial presente,
ó colinas esparsas, ó veios de águas sussurrantes,
somente ouvidos, nem sequer ouvidos, mas presentes, esparsos,
ó presença da terra nas pálpebras, num sabor acre da garganta,
ó estrelas, ó verdadeiras estrelas da infância,
ó sabor do escuro, do ventre, da espessura da noite,
ó profundo sono de raízes,
ó água bebida ao rés da terra, ó sono da vida,
ó som de bichos, de tudo e nada, num só obscuro silêncio,
ó terra junto a mim, ó grande e estranha terra,
ó perdida proximidade, ó perdida longinquidade,
ó enorme som de búzio do mar,
ó tranquilos jardins, ó sabor de cansaço,
ó sabor antes de mim,
ó quando eu não sabia e tudo em mim sabia,
ó noite, ó espessura, ó outra vez a noite,
outra vez esse sabor submerso, esse sabor do fundo,
esse sabor bem longe, esse sabor total,
esse sabor onde eu sinto a terra num só gosto,
esse sabor original, fonte de todo o sabor,
surto submerso,
ó único sabor.



In: Poesia Presente (Antologia, sel. Maria Filipe Ramos Rosa), Lisboa, Assírio & Alvim, 2014
De: Voz Inicial, Lisboa, Moraes Editora, 1960

Os documentos que provam que Espanha financiou a ditadura de Jorge Videla

Um artigo da InfoNews, que se refere ao suporte dado à ditadura cruenta do ditador Jorge Videla (1976-1981) pelo Estado Espanhol, no chamado período de "transição democrática".

Nunca a famosa frase do príncipe de Falconeri - personagem do romance Il gattopardo (O Leopardo) de Tomasi di Lampedusa e curiosamente apresentado como apoiante dos Bourbons do Reino das Duas Sicílias - porventura, fez e faz, infelizmente, tanto sentido:

“Algo deve mudar para que tudo continue como está”




Na foto João Carlos Afonso Vítor Maria de Bourbon e Bourbon-Duas Sicílias, rei de Espanha (1975- 2014) por vontade expressa, em letra de lei, do ditador Franco, que o nomeou em 1969 como seu sucessor e o ditador argentino, general Jorge Rafael Videla Redondo, um dos poucos na história que foi julgado, condenado a prisão perpétua por crimes de lesa-humanidade e destituído da patente militar.

Quanto ao Carlitos apesar das inúmeras acusações de corrupção e mal feitorias continua impune.


domingo, 19 de outubro de 2014

"EM NOME DOS SONHOS"

Em nome dos sonhos
Que realizei
Ou que se desfizeram
Nas vagas da vida
Ainda sonho

Sou o que fui
E o que sou
E me renovo
Sendo o que sou

Sonhando

sábado, 18 de outubro de 2014

Juíz@s com mais de 50 anos... como é de sexo?

Por decisão exarada em acórdão do Supremo Tribunal Administrativo, os juízes-conselheiros Maria Fernanda dos Santos Maçãs, de 58 anos, Alberto Acácio de Sá Costa Reis (64) e José Francisco Fonseca da Paz (66) consideraram, por unanimidade, que que a sexualidade aos 50 anos já não “tem a mesma importância que assume em idades mais novas”.

Transcrevo o considerando expandido no "douto" acórdão:

"Por outro lado, importa não esquecer que a Autora na data da operação já tinha 50 anos e dois filhos, isto é, uma idade em que a sexualidade não tem a importância que assume em idades mais jovens, importância essa que vai diminuindo à medida que a idade avança."

Logo deduzo que est@s juíz@s consideraram que a sexualidade tem como objectivo a procriação - senão não enfatizariam "50 anos e dois filhos"- e que, por certo, com base nas suas vivências pessoais e entendimento de sexo, desvalorizam o sexo nas idades menos jovens, que para além do "truca-truca" - como poetou Natália (1) - incluí carinho e afeição. É que comprovadamente não é a idade que dessexualiza o ser humano, outras razões haverá.

Sobre este assunto recomendo a leitura do artigo assinado por Carlos Rodrigues Lima e publicado no DN, que a revista Julgar da Associação Sindical dos Juízes Portugueses (ASJP), republicou na integra. Para além de declarações diversas avaliando esta decisão pouco informada e sem base científica, refere ainda outros casos onde os juízes decidiram contra a natureza das coisas, nomeadamente em "Psiquiatra absolvido em violação de paciente", "Castigos corporais a deficientes são aceitáveis" e "Trabalhar alcoolizado é bom para produtividade".

Pergunta-se: E não será possível exautorá-los?

 (1) Para os mais jovens e para os que já não se recordam

Natália Correia, na sequência da afirmação do deputado do CDS, João Morgado, em Abril de 1982, de que «o acto sexual é para fazer filhos», respondeu-lhe com o seguinte poema, provocando o riso em todas as bancadas parlamentares.

Já que o coito – diz Morgado –
tem como fim cristalino,
preciso e imaculado
fazer menina ou menino;
e cada vez que o varão
sexual petisco manduca,
temos na procriação
prova de que houve truca-truca.
Sendo pai só de um rebento,
lógica é a conclusão
de que o viril instrumento
só usou – parca ração! -
uma vez. E se a função
faz o órgão – diz o ditado –
consumada essa excepção,

ficou capado o Morgado.

RECOMENDO: Entrevista a Frei Bento Domingues -

Entrevista a Frei Bento Domingues realizada por Rosa Ramos e publicada no i.

Leitura que recomendo a muit@s juíz@s...

Saramago, Alabardas e a Palestina

A fina ironia de Saramago, com a Palestina sempre presente por razão e coração, naquela que foi a sua última narrativa:

"...
Notava-se a ausência de tanques no catálogo da fábrica, mas era já público que se estava preparando a entrada de produções belona s. a. no mercado respetivo com um modelo inspirado no merkava do exército de Israel. Não podiam ter escolhido melhor que o digam os palestinos.
..."

In ALABARDAS de José Saramago, p. 14, 1.ª edição, Porto Editora