quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

"NAMORO" de Viriato da Cruz


NA VOZ DE FAUSTO
 
Mandei-lhe uma carta em papel perfumado
e com a letra bonita eu disse ela tinha
um sorrir luminoso tão quente e gaiato
como o sol de Novembro brincando de artista nas acácias floridas
espalhando diamantes na fímbria do mar
e dando calor ao sumo das mangas.
sua pele macia - era sumaúma...
Sua pele macia, da cor do jambo, cheirando a rosas
tão rijo e tão doce - como o maboque...
Seu seios laranjas - laranjas do Loge
seus dentes... - marfim...
Mandei-lhe uma carta
e ela disse que não.

Mandei-lhe um cartão
que o Maninjo tipografou:
"Por ti sofre o meu coração"
Num canto - SIM, noutro canto - NÃO
E ela o canto do NÃO dobrou.

Mandei-lhe um recado pela Zefa do Sete
pedindo rogando de joelhos no chão
pela Senhora do Cabo, pela Santa Ifigénia,
me desse a ventura do seu namoro...
E ela disse que não.

Levei à avó Chica, quimbanda de fama
a areia da marca que o seu pé deixou
para que fizesse um feitiço forte e seguro
que nela nascesse um amor como o meu...
E o feitiço falhou.

Esperei-a de tarde, à porta da fábrica,
ofertei-lhe um colar e um anel e um broche,
paguei-lhe doces na calçada da Missão,
ficamos num banco do largo da Estátua,
afaguei-lhe as mãos...
falei-lhe de amor... e ela disse que não.

Andei barbado, sujo, e descalço,
como um mona-ngamba.
Procuraram por mim
" - Não viu...(ai, não viu...?) Não viu Benjamim?"
E perdido me deram no morro da Samba.
E para me distrair
levaram-me ao baile do sô Januário
mas ela lá estava num canto a rir
contando o meu caso às moças mais lindas do Bairro Operário

Tocaram uma rumba dancei com ela
e num passo maluco voamos na sala
qual uma estrela riscando o céu!
E a malta gritou: "Aí Benjamim!"
Olhei-a nos olhos - sorriu para mim
pedi-lhe um beijo - e ela disse que sim.

In: No reino de Caliban II - antologia panorâmica de poesia africana de expressão portuguesa

terça-feira, 21 de outubro de 2014

"O ÚNICO SABOR" - António Ramos Rosa

Sabor, sabor oculto,
submerso,
sabor adormecido, ó rosas, ó antes, primaveras,
sabor só abruptamente surto
na queda do sono, no fulgor de um relâmpago,
surto, submerso,
ó sabor antes da consciência, antes de tudo,
ó sabor só nascido sobre a paz última de tudo para além de tudo,
sabor da terra ainda antes dos olhos,
sabor a nascer, sabor-desejo, antes do beijo, sabor de beijo,
sabor mais lento, mais fundo, mais de dentro,
sabor a marulhar, cálido, denso, como a cor,
sabor de estar, sabor de ser,
ó tranquila degustação sem mandíbulas,
sabor de dentro como de um cheiro imemorial presente,
ó colinas esparsas, ó veios de águas sussurrantes,
somente ouvidos, nem sequer ouvidos, mas presentes, esparsos,
ó presença da terra nas pálpebras, num sabor acre da garganta,
ó estrelas, ó verdadeiras estrelas da infância,
ó sabor do escuro, do ventre, da espessura da noite,
ó profundo sono de raízes,
ó água bebida ao rés da terra, ó sono da vida,
ó som de bichos, de tudo e nada, num só obscuro silêncio,
ó terra junto a mim, ó grande e estranha terra,
ó perdida proximidade, ó perdida longinquidade,
ó enorme som de búzio do mar,
ó tranquilos jardins, ó sabor de cansaço,
ó sabor antes de mim,
ó quando eu não sabia e tudo em mim sabia,
ó noite, ó espessura, ó outra vez a noite,
outra vez esse sabor submerso, esse sabor do fundo,
esse sabor bem longe, esse sabor total,
esse sabor onde eu sinto a terra num só gosto,
esse sabor original, fonte de todo o sabor,
surto submerso,
ó único sabor.



In: Poesia Presente (Antologia, sel. Maria Filipe Ramos Rosa), Lisboa, Assírio & Alvim, 2014
De: Voz Inicial, Lisboa, Moraes Editora, 1960

Os documentos que provam que Espanha financiou a ditadura de Jorge Videla

Um artigo da InfoNews, que se refere ao suporte dado à ditadura cruenta do ditador Jorge Videla (1976-1981) pelo Estado Espanhol, no chamado período de "transição democrática".

Nunca a famosa frase do príncipe de Falconeri - personagem do romance Il gattopardo (O Leopardo) de Tomasi di Lampedusa e curiosamente apresentado como apoiante dos Bourbons do Reino das Duas Sicílias - porventura, fez e faz, infelizmente, tanto sentido:

“Algo deve mudar para que tudo continue como está”




Na foto João Carlos Afonso Vítor Maria de Bourbon e Bourbon-Duas Sicílias, rei de Espanha (1975- 2014) por vontade expressa, em letra de lei, do ditador Franco, que o nomeou em 1969 como seu sucessor e o ditador argentino, general Jorge Rafael Videla Redondo, um dos poucos na história que foi julgado, condenado a prisão perpétua por crimes de lesa-humanidade e destituído da patente militar.

Quanto ao Carlitos apesar das inúmeras acusações de corrupção e mal feitorias continua impune.


domingo, 19 de outubro de 2014

"EM NOME DOS SONHOS"

Em nome dos sonhos
Que realizei
Ou que se desfizeram
Nas vagas da vida
Ainda sonho

Sou o que fui
E o que sou
E me renovo
Sendo o que sou

Sonhando